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No Salão de Embarque da Globalização

Pra quem viveu no Brasil nos anos 80 e 90 e acompanhou os vários planos econômicos na luta contra a inflação, a estabilidade econômica recente parece colocar o nosso país a um passo do primeiro mundo. Sem dúvida alguma, o crescimento da economia causa um alívio não somente para as empresas, mas também para o cidadão comum de classe media, e os novos ricos brasileiros, que conseguem embarcar para o exterior, em busca da tão famosa experiência internacional. Conseguir, depois de muitos anos de luta, juntar dinheiro e fazer a tão sonhada viagem à Europa (com freqüência, 7 países em 20 dias!) representa não somente uma conquista merecida, mas acima de tudo, tem um significado que vai além da satisfação de um desejo de consumo. Esta conquista significa um passo acima no degrau da hierarquia sócio-econômica, e pode ser comparada à compra do primeiro carro.  No mundo globalizado existem, aparentemente, dois grupos de pessoas, os que têm ‘experiência internacional’ e os que não têm. No entanto, não é bem assim. A lógica desta classificação é muito mais complexa, requer uma análise mais profunda e pode ser desvendada nos principais aeroportos do mundo quando os brasileiros se encontram na sala de embarque para pegar o vôo de volta ao Brasil.
Nos salões de embarque, a alegria dos brasileiros em ouvir o português é comemorada.   Entre eles estão os viajantes de primeira viagem, que voltam falando mal da ‘velhice’ das cidades européias, e os que se deslumbram com a Flórida latina. De qualquer forma, eles deram o primeiro passo, e, ao voltar ao Brasil, podem ser chamados pelos amigos de ‘internacionais’. Logo na primeira experiência, já podem se diferenciar dos demais, mas, na maioria das vezes, estão preocupados em carimbar o passaporte, nos países por onde passarem, como forma de prova que pertencem ao grupo dos que já estiveram lá. Também entre eles, estão os estudantes de língua estrangeira, que pagam caríssimo pela estadia e para poder colocar sua viagem ao exterior em seus jovens currículos e também se diferenciarem no mercado de trabalho. Na tentativa de aprender o idioma, compartilham salas de aula com muitos outros brasileiros, com imigrantes e refugiados de outros países.

Ainda no salão de embarque, estão presentes também os profissionais brasileiros talentosos que se sobressaíram em suas empresas internacionais (ou nacionais em plena expansão) em missões comerciais ou em treinamento. Segundo o Ph.D. Milton Bennett especialista em desenvolvimento intercultural, no entanto,  os dois grupos mencionados anteriormente (viajantes de primeira viagem e os profissionais brasileiros talentosos) pertencem a um mesmo nível de iniciantes interculturais devido ao fato que a visão do mundo deles, estão apenas na primeira fase de desenvolvimento intercultural. Nesta fase, os indivíduos vivenciam pela primeira vez um verdadeiro choque cultural, e apesar de se impressionarem com a riqueza ‘primeiro-mundista’,eles reclamam da frieza dos gringos, da falta de paciência com os turistas brasileiros, e se sentem, após poucas semanas, uns verdadeiros peixes fora d’água.  As teorias do Ph.D. Bennett, explicam que tais comportamentos demonstram uma separação mental entre ‘nós’ e ‘eles’, e a quase incapacidade de vivenciar as diferenças culturais sem atitudes estereotipadas e julgamentos  precoces. Na volta ao Brasil, todos concordariam sobre o quanto é bom voltar pra casa, e que o povo brasileiro é o melhor do mundo.
Igualmente, no mesmo salão de embarque, estão os emigrantes brasileiros que foram tentar a sorte no mundo desenvolvido. Segundo estatísticas do ministério do exterior (dados de 2005), existem dois milhões de brasileiros vivendo no exterior. Metade deles, os expatriados brasileiros, teve uma valiosa opção de mudança, uma oportunidade de trabalho ou aperfeiçoamento profissional, um parente, ou um conhecido, que os ajudem lá fora. A outra metade são aqueles que saem do Brasil por falta de opção, ou seja, aqui teriam pouca ou nenhuma chance de melhorar de vida, de juntar dinheiro pra comprar uma casa ou algo parecida. Estes vão na pura e completa ilusão, quase uma miragem; na maioria das vezes deixam para traz famílias e até filhos. Muitos desses, depois de anos no exterior, na maioria ilegalmente, vivem no subemprego, e se tornam exilados econômicos, sem nem aprender a língua local ou serem respeitados socialmente; sonham em voltar para casa, mas têm medo da pobreza. Na Itália, por exemplo, existe até um termo discriminante e pejorativo, os ‘extracomunitarios’ para definir imigrantes vindos especificamente fora da comunidade européia. O que unem estes dois grupos de emigrantes brasileiros, estas duas metades, é o fato que, mesmo depois de muitos anos, não conseguem se adaptar e se integrar totalmente com os valores locais; são gerações  de emigrantes que vivem em nostalgia, e na esperança que talvez seus filhos, por freqüentarem escolas e falarem a língua, consigam a sonhada integração com a cultura alheia.
De acordo com as mais recentes teorias interculturais existem pelo menos 5 fases pelas quais indivíduos de todas as culturas passam até atingirem uma integração em outra cultura. No primeiro estágio do desenvolvimento intercultural estariam os viajantes de primeira viagem. Logo a seguir num segundo estágio, estão os que vivem pelo menos de 3 a 5 anos no exterior, os emigrantes brasileiros no exterior (por opção ou falta dela) pois estes tiveram que sobreviver emocionalmente ao fenômeno psicológico chamado o ‘choque do eu’, que se diferencia do choque cultural por ser um processo interno de reavaliação dos próprios valores e costumes que acontecem simultaneamente com choques culturais por vários anos. Este longo processo de adaptação pode tornar a experiência internacional algo positivo, levando indivíduos a aprender a identificar e lidar com os aspectos abstratos e invisíveis de outras culturas, mas também pode causar frustrações crônicas, isolamento e levar à depressão, tornando a vivência internacional algo negativo e até socialmente e emocionalmente traumático.
Em cada etapa do desenvolvimento das competências interculturais, a visão de mundo do individuo se desenvolve a partir de uma visão etnocêntrica do mundo, onde a própria cultura é a única considerada real, a única referência e superior a todas as outras, até chegar ao estagio avançado, onde, depois de passar pelo choque cultural e do eu varias vezes, sua visão do mundo se torna etnorelativa, ou seja, o individuo é capaz deverdadeiramente entender visões culturais diversas, sem pré-julgamentos e, além disso, consegue ter uma visão objetiva da própria cultura, e com o tempo desenvolve habilidades e competências para se adaptar a qualquer ambiente cultural. Nesta fase avançada do desenvolvimento intercultural, uma viagem internacional, não simboliza mais um motivo de esnobismo bobo, tipicamente dos novos ricos (em conseqüência dos anos de isolamento econômico) nem menos, um status social. A experiência intercultural se torna rica, e é vivenciada num estado de profunda observação, aprendizado e respeito.
Com a globalização, tanto profissionais quanto empresas correm atrás do atraso causado pelos anos de isolamento econômico. Um relatório divulgado em outubro 2007, pela conferencia das nações Unidas para o comercio e Desenvolvimento (UNCTA) braço da organização das nações Unidas (ONU) para o desenvolvimento econômico, mostrou que o Brasil investiu no exterior o recorde de 28 bilhões de dólares, valor que pela primeira vez superou a entrada de investimentos no País.  A expansão de operações no exterior passou de uma participação de 13% no total de investimentos do Brasil em 2001 para 35% em 2005. Neste processo de internacionalização das empresas, o departamento de RH é o primeiro a confrontar os problemas interculturais da expatriação de seus executivos. Os gestores de RH têm, além de outras funções, a função de selecionar e desenvolver os novos talentos para o mundo globalizado; eles identificam, no processo seletivo, indivíduos que consigam representar suas empresas no exterior, e se sobressaiam num ambiente intercultural. Em outras palavras, eles procuram, entre os candidatos, aqueles que possuem a mais recente competência no mundo dos negócios, a competência intercultural. Mas o que caracteriza esta competência e a distingue da competência lingüística (normalmente, o inglês)? Quais dos grupos de brasileiros no nosso salão de embarque, acima mencionados, teriam se desenvolvido em conhecedores verdadeiros de culturas, capazes até de liderar equipes multiculturais? Entre as 500 maiores empresas globais, a maioria já contrata consultorias especializadas para auxiliá-las não somente no processo seletivo para funções internacionais através de avaliações, ou assessment, mas também para identificar competências interculturais a serem desenvolvidas em programas de desenvolvimento de talentos, em treinamento e coaching intercultural.
Um dos problemas comuns enfrentados pelas empresas é o fato que ao enviar executivos e suas famílias ao exterior, a mal adaptação do cônjuge e dos filhos pode inviabilizar a transferência internacional. Segundo a gerente de planejamento de recursos humanos de uma das maiores empresas brasileiras, na Rússia, as dificuldades com o idioma e o rigor do clima fizeram com que as famílias brasileiras retornassem após 85 dias. Segundo uma pesquisa realizada pela Mercer HR Consulting, falta uma política formal de expatriação entre as empresas latino-americanas comparada com as empresas de outros continentes. Esta estatística mostra que não somente os brasileiros viajantes, mas também as empresas têm muito a aprender na área do desenvolvimento intercultural.
De volta ao nosso alegre e agitado salão de embarque, e a seguir, dentro da aeronave, brasileiros de todos os grupos se misturam e, no final da viagem, aplaudem o comandante pelo pouso seguro em terra firme. Se observarmos atentamente, se torna quase possível identificar quem é quem, pelos comportamentos e comentários compatíveis com o nível de desenvolvimento intercultural e diferentes visões de mundo. Só nos resta, recepcioná-los de braços abertos e esperar que estejam ainda mais bem preparados para a próxima viajem rumo ao caminho sem volta da globalização.

Autora:

Simone T. Costa Eriksson
MBA, Psicóloga e Coach intercultural. Brasileira, viveu 13 anos no exterior (EUA, Suécia, Polônia e Itália), a maioria do tempo como expatriada brasileira; hoje é palestrante sobre interculturalidade para profissionais de RH, para expatriados no Brasil, para brasileiros que atuam no exterior, e para escolas internacionais. Atua também como coach intercultural de expatriados e para o cônjuge (com ou sem filhos). Direitos autorais reservados à Costa Eriksson Consulltoria Ltda. (em parceria com www.interculturalplus.com)

 

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